Os quartos de motel
Tenho uma amiga que diz detestar quartos de motel. Tenho muitas amigas que não dizem nada, mas detestam quartos de motel. Todas implicam com uma única característica: a impessoalidade do ambiente.
Só comecei a frequentar motéis com regularidade depois que eu e Fugu nos tornamos amantes. E é verdade, nada ali tem a minha marca, nada ali tem passado. Aqueles quartos não guardam histórias. Não existem cartas escondidas no fundos dos armários, não existe o suor de um antigo namorado impregnado nas almofadas, não existe um livro que desponta por baixo de uma pilha de papéis.
Limpo de referências pessoais, o quarto de motel torna-se um ambiente catalisador do presente. Nada me distrai da paixão. A impessoalidade do hotel faz do corpo do amante o único território onde é possível me apoiar para prosseguir. O corpo do amado é o único elemento conhecido, vital e pleno de referências do ambiente.
Isso atrai minha atenção erótica como um íma.
Foi assim, magnetizada, que escrevi os textos que compõe o livro Duas Bocas.